Representantes do setor privado, governo federal, academia, instituições de fomento e parceiros europeus se reuniram nesta quinta-feira (14), em São Paulo, para o encontro IA Industrial: A Nova Fronteira de Investimentos na Indústria Brasileira, parte da série de Business Dialogues promovidos no âmbito do projeto Diálogo de Investimentos Brasil-União Europeia. Realizado na sede da Fundação Fernando Henrique Cardoso, o evento foi promovido pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), em parceria com a Delegação da União Europeia no Brasil e a ApexBrasil.
A agenda contou com mesas temáticas que discutiram os próximos passos da cooperação bilateral em áreas estratégicas, como transformação digital, infraestrutura tecnológica, capacitação industrial, financiamento à inovação e governança da inteligência artificial para a indústria brasileira. O encontro ocorreu em um momento de particular relevância para a agenda Brasil–União Europeia, marcado pela entrada em vigor do Acordo Mercosul–UE em 1º de maio, pela visita do presidente Lula à Feira de Hannover e pela expectativa de assinatura da Parceria Digital Brasil–União Europeia.
O painel deabertura contou com Sergio Fausto, Diretor-Geral da Fundação Fernando Henrique Cardoso, que destacou a importância de reunir setor público, setor privado e sociedade civil em torno de soluções de longo prazo para os desafios da transformação tecnológica no Brasil. Em seguida, Hussein Kalout, Conselheiro Consultivo Internacional do CEBRI, ressaltou o tema da fronteira entre inteligência artificial e indústria como uma matriz fundamental para o desenvolvimento do país. Do lado europeu, Johannes Klingberg, Chefe da Unidade Nacional na GIZ, sinalizou o momento favorável da parceria bilateral e lembrou que 80% dos dados coletados pela indústria atualmente não são utilizados, cenário que a inteligência artificial vem transformar.
Durante o Keynote Speach, o panorama do ecossistema brasileiro de inteligência artificial foi apresentado por Caetano Penna, Diretor de Projetos Estratégicos e Relações Internacionais do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. De acordo com o especialista:
“O gargalo da indústria brasileira não é a tecnologia disponível. Ela existe. A tecnologia está aí, vem da Europa, dos Estados Unidos, da Ásia. Ela está disponível para licenciamento, para implementação, para integração. O gargalo é o que nós chamamos de coerência sistêmica”, afirmou.
Para Penna, a coerência sistêmica envolve a articulação entre infraestrutura tecnológica, os agentes que conectam pesquisa e produção, o capital disponível e o ciclo produtivo real. Apresentando o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), com investimento previsto de R$ 23 bilhões em cinco eixos, o pesquisador do CGEE destacou seu caráter inédito no contexto das políticas públicas brasileiras de ciência e tecnologia, e alertou para os riscos de uma estratégia centrada apenas na adoção de tecnologia importada.
A mesa seguinte, moderada por Gabriella Seiler, Senior Fellow do CEBRI, reuniu representantes do setor privado que apresentaram experiências concretas de aplicação da inteligência artificial em diferentes setores produtivos. Os relatos evidenciaram que a conectividade é condição estrutural para qualquer agenda de IA industrial, e que a expansão do 5G pode adicionar cerca de 5% ao crescimento do PIB latino-americano, desde que políticas públicas adequadas garantam o alcance da tecnologia às pequenas e médias indústrias.
Os casos apresentados giraram em torno de algumas lições centrais. A primeira é que as indústrias brasileiras frequentemente já dispõem de dados, mas não conseguem dar contexto a eles, o que limita decisivamente o valor extraído da tecnologia. A segunda é que o valor da IA não está no algoritmo isolado, mas em sua integração ao ciclo de tomada de decisão e à orquestração com os demais sistemas operacionais da empresa. A máxima que sintetizou esse aprendizado foi direta: inteligência artificial que não muda decisão dificilmente escala.
Foram destacadas ainda barreiras estruturais relevantes para a adoção em larga escala. O maquinário médio das indústrias brasileiras tem 14 anos, e o custo de conectar uma máquina antiga à rede gira em torno de R$ 50 a 60 mil, obstáculo concreto, sobretudo para as pequenas e médias empresas. Por outro lado, casos como o da mineração mostraram o potencial de transformação: soluções de IA aplicadas à logística reduziram em 30% o custo de frete em uma das maiores operações do setor. Também foi apresentado o potencial de incluir a inteligência artificial como critério nas Parcerias de Desenvolvimento Produtivo (PDPs) do governo federal, como forma de atrair modelos avançados ao Brasil via transferência de tecnologia vinculada ao acesso ao mercado do SUS.
Do lado do financiamento, foi destacada a atuação do BNDES, que destinou cerca de R$ 5 bilhões a projetos de IA desde 2023 — sendo R$ 4 bilhões em crédito e R$ 1 bilhão em participação acionária — com atenção especial à heterogeneidade do tecido industrial brasileiro, marcado por empresas em estágios muito diferentes de maturidade digital. Um dos pontos centrais é que boa parte das empresas sequer dispõe de dados estruturados para trabalhar, com informações ainda dispersas na rotina dos profissionais da linha de produção.
A segunda parte do encontro foi dedicada a uma dinâmica de aproximação direta entre os participantes, divididos em três grupos — indústrias demandantes, provedores de tecnologia e financiadores — para diálogos trilaterais voltados à identificação de oportunidades concretas de colaboração. A iniciativa integra um esforço sistemático do CEBRI, da União Europeia e da Apex-Brasil para impulsionar discussões de interesse mútuo nas relações Brasil–União Europeia, com foco em resultados tangíveis para a economia, a inovação e o desenvolvimento sustentável






